Friday, 7 December 2007

a vegetação na paisagem urbana


A vegetação na paisagem urbana
resenha de márcia nogueira batista
Livro resenhado:TERRA, Carlos; ANDRADE, Rubens de; TRINDADE, Jeanne; BENASSI, Alfredo. Arborização. Ensaios historiográficos. Rio de Janeiro, Maia Barbosa, 2004, 215 p.
Na Europa, a inserção das áreas verdes já fazia parte da estrutura organizacional de suas cidades desde a Antigüidade. Quem afirma é Carlos Terra em seu artigo “Influências externas para a arborização no Brasil”, que integra o livro Arborização. Ensaios historiográficos.

Terra refere-se à ocorrência de bosques sagrados na Antiguidade clássica. Cita documentos iconográficos da Idade Média que mostram como a árvore frutífera e as ervas medicinais estiveram presentes na estrutura monástica, indicando como exemplo o Mosteiro de Saint Gall, na Suíça, que se utilizava de um pomar-cemitério em área anexa.

O jardim italiano, que teve grande influência no paisagismo europeu durante o Renascimento e o Maneirismo, caracterizou-se inicialmente por sua forma racional, com árvores de pequeno porte em que era utilizada a arte da topiária. Só num segundo momento, foi que passaram a predominar as massas vegetais de maior porte e volumes significativos. Nesta época, Leoni Alberti em seu tratado De re aedificatoria, chega a estabelecer bases teóricas para os jardins italianos.

Porém, o paisagismo associado aos castelos e aos espaços públicos só se destacou de fato, a partir do século XVII, com os jardins barrocos de André Le Notre para o Castelo Vaux-le-Vicomte e para o Palácio de Versailles. Os jardins franceses, que se caracterizavam por mostrar a natureza dominada pelo homem, prevalecendo a geometria e a uniformidade simétrica, com uma perspectiva visual acentuando a idéia da monumentalidade, tornam-se então a referência para o paisagismo em todo o mundo.

No século XVIII porém, em conseqüência do movimento de artistas e intelectuais em prol da natureza, destacou-se o jardim inglês, com seus elementos sinuosos, românticos. Esta nova linguagem, que trazia um outro modo de pensar e reproduzir a paisagem natural, repercutiu fortemente sobre o jardim francês.

Terra faz uma importante análise da influência do modelo inglês sobre as transformações que ocorreram ao longo dos séculos XIX e XX no conceito dos parques públicos, com conseqüência sobre a paisagem urbana das cidades européias que passaram por reformas urbanas significativas depois do impacto causado pela revolução industrial. Com riqueza de informações, são apresentados os parques franceses que absorveram este novo modelo de incorporação da natureza ao tecido urbano, com destaque para os grandes parques que se constituíram em elementos chave da reforma urbana de Paris, Bois de Boulogne e Bois de Vincennes.

A investigação desenvolvida por Rubens de Andrade e Jeanne Trindade em seus artigos, respectivamente, A Construção da Paisagem Urbana no Brasil e O Século XX e a Consolidação do Elemento Arbóreo no Desenho Urbano das Cidades Brasileiras, tem como base as influências européias analisadas por Terra. Desta forma, os três artigos se complementam, o primeiro apresentando as origens e os outros dois, a gradativa inserção da vegetação no espaço urbano brasileiro desde o período colonial ao fim do século XX.

Rubens, utilizando-se de valioso material iconográfico, mostra como a introdução da vegetação nas cidades coloniais se deu num tímido processo em que a árvore era um elemento muito mais circunscrito à paisagem natural do que à organizada pelo homem. Destaca porém, algumas ocorrências importantes, que se constituíram em exceção ao que era praticado na época:

o Palácio de Nova Friburgo em Recife (1642), com seu belo jardim onde o elemento vegetal se destacava por sua disposição formal e função definida. A ação de Maurício de Nassau porem, não se consolidou como um ideário de organização urbana, nem mesmo em Recife, a obra do arquiteto italiano Antonio Landi em Belém, a partir de 1753, por sua contribuição como naturalista identificado com a paisagem amazônica; além de diversas outras atividades, foi o responsável pela introdução da mangueira no Pará, vegetação que no final do século XIX veio a caracterizar a paisagem urbana de Belém;
o caráter científico dos jardins botânicos criados no Brasil, começando em Belém (1796), seguido pelos de Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro, Olinda e Ouro Preto;
o projeto do Passeio Público do Rio de Janeiro (1781), de inspiração no jardim francês porém, com utilização de espécies vegetais tropicais que não permitiam a aplicação da arte topiária e que resultaram em grandes copas que se tocavam, promovendo generosas áreas sombreadas que quebravam a rigidez geométrica do desenho;
a criação no Brasil de outros dois espaços públicos em áreas centrais: o Passeio Público de Salvador (1803) e o Largo Redondo em Belém (1809), ambos com grande destaque para o elemento arbóreo em sua composição.

Rubens desenvolve instigante estudo comparativo da vegetação utilizada no projeto original de Mestre Valentim com a que foi acrescentada por Auguste Glaziou quando de sua reforma do Passeio Público do Rio de Janeiro, a partir de 1861, com traçado baseado no desenho do jardim inglês, então em voga na Europa, como assinalou Terra. Conclui afirmando que “entende-se que as transferências de modelos externos na criação de espaços livres de nossas cidades, em função da arborização, em geral se adaptaram às características próprias de nossa paisagem. [...] Talvez seja esse um dos fatores decisivos para julgar o grau de distanciamento criado entre a forma de uma paisagem pretensamente nacional e aquele modelo externo que teimou em não se disciplinar na imagem de nossas cidades”.

Na segunda metade do século XIX porém, com as medidas adotadas em todas as cidades brasileiras relacionadas à higiene, à salubridade e ao embelezamento urbano, a questão da arborização urbana adquire outra dimensão, em que a árvore se torna elemento fundamental na estruturação dos espaços públicos, seja por seu aspecto estético, funcional ou morfológico. Rubens se detém sobre importantes medidas adotadas em diversas cidades, principalmente Belém, sua cidade natal, de onde traz preciosas informações, como o Plano de Arborização de 1897-1902.

Jeanne Trindade dá continuidade ao tema e ao foco temporal, analisando outras experiências urbanísticas ao longo do século XX nas quais a vegetação se consolidou como elemento dominante. Traz uma excelente contribuição ao estudo da arborização urbana no Brasil, relacionando as espécies vegetais predominantes nas diversas cidades em cada momento.

Cita uma intervenção urbanística inovadora para a época, o Jardim América em São Paulo, que infelizmente não teve continuidade e que se baseava no modelo de cidade-jardim, do inglês Ebenezer Howard. Entre as primeiras áreas de lazer que surgiram no começo do século XX, decorrentes do novo modelo de desenho urbano das cidades brasileiras, Jeanne destaca o parque linear que margeava a orla das praias de Santos, finalizado na década de 30 e que acompanhava o estilo eclético dos parques urbanos do Rio de Janeiro.

Experiência revolucionária na relação árvore – cidade, foi a preconizada pela Carta de Atenas, contribuição dos urbanistas modernistas europeus, liderados por Le Corbusier, que reunidos no 4º CIAM redigiram a Carta de Atenas: “Doravante todo bairro residencial deve compreender a superfície verde necessária à organização racional dos jogos e esportes das crianças. [...] Os volumes edificados serão intimamente amalgamados às superfícies verdes que os cercam”.
Abriu-se assim espaço para a implantação do projeto de Lúcio Costa (1957) para Brasília, no qual a cidade é considerada como um grande parque urbano em que se inserem o sistema viário e as edificações.
Ao longo do século XX, diversos parques urbanos foram se formando, destacando-se em sua implantação a fundamental contribuição de Roberto Burle Marx para o paisagismo no Brasil. À sua experiência de paisagista associada aos arquitetos modernistas no Palácio Gustavo Capanema, seguiram-se dezenas de projetos em que “a cada curva, relevo ou textura descobrem-se novos contrastes de grande impacto visual que dão dinamismo ao seu trabalho. As formas, as cores, as texturas ganham uma importância extraordinária em seus projetos”, como tão bem analisa Jeanne.

Nesses parques, a árvore passou a ser um elemento chave do projeto. Jeanne deu destaque ao Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro, que se tornou um dos projetos mais emblemáticos de Burle Marx. Trata-se de concepção de parque urbano totalmente inovadora para a época, em que duas grandes vias expressas de ligação centro-sul foram compatibilizadas com a oferta de áreas de recreação, esportivas, culturais e de lazer contemplativo, através de uma vegetação predominantemente nativa, disposta em novos arranjos, com árvores e palmeiras de formas e florações exuberantes, que levam a uma outra relação com o usuário, diferente do praticado até aquele momento.

A partir da década de 70, o aumento vertiginoso da população urbana no Brasil, acrescido da demanda por novos meios de transporte e serviços de infra-estrutura, foi responsável pelo intenso processo de verticalização das cidades brasileiras. No paisagismo urbano, destacaram-se soluções que também tiveram origem em modelo europeu do século XX: as ruas de pedestre, os calçadões, as praças com seus novos usos, os parques urbanos com funções próprias. Em todas estas soluções, a vegetação ocupa um lugar fundamental, é a partir de suas características que se desenvolve um projeto.

Os três autores, Carlos Terra, Rubens de Andrade e Jeanne Trindade respondem pela coordenação do Grupo de Pesquisa História do Paisagismo, da EBA – Escola de Belas Artes da UFRJ. Alfredo Benassi é argentino, engenheiro agrônomo, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Florestais, mantém com os outros três autores, relações sociais e profissionais de longa data.

Em seu artigo “El paisajismo, una voluntad en la llanura argentina”, nos transmite uma excelente contribuição de cunho teórico, apresentando um panorama do paisagismo argentino ao resgatar momentos do processo de consolidação do paisagismo como exercício profissional e como disciplina acadêmica. Benassi centra seus estudos na cidade de Buenos Aires e na região dos pampas argentinos, que segundo ele contêm as principais características paisagísticas, ambientais, sócio-econômicas, culturais e políticas do país.

A leitura de seu texto nos traz muita satisfação, pela quantidade de valiosas informações e pela constatação de que o processo argentino não diferiu muito do brasileiro, inicialmente com a incorporação do modelo francês e posteriormente do inglês, consolidando-se ao longo do século XX com o conceito de espaço verde, definindo novas funções para o espaço público urbano. Assim como no Brasil, o compromisso com a questão ambiental gerou a instituição da primeira Reserva Ecológica em Buenos Aires. E numa reflexão final sobre o futuro do paisagismo, sinaliza para a valoração do patrimônio histórico ambiental e considera que “o olhar paisagístico tem muito que questionar sobre a natureza e a cultura como dignidade de um acervo para as gerações atuais e vindouras”.

Obrigada Benassi por seus ensinamentos, principalmente neste momento às vésperas do 1º Congresso Internacional da ABAP, em que conviveremos intensamente durante três dias com nossos colegas da América Latina.

Parabéns aos três amigos brasileiros que abriram mais um espaço para divulgação de seu saber, contribuindo para preencher a enorme lacuna da bibliografia especializada no nosso campo de trabalho.

natureza e cultura da sexualidade


Reflexões sobre a natureza e a cultura da sexualidade
José Guilherme Couto de Oliveira
Introdução

A sexualidade humana é determinada biológica ou culturalmente? Esta é uma questão que tem atravessado diversas áreas do conhecimento, à qual este trabalho pretende contribuir com algumas reflexões.

Primeiramente, cabe apontar que a própria pergunta decorre de uma dicotomia entre natureza e cultura, fruto de uma perspectiva antropocêntrica que vai atribuir ao pensamento simbólico uma descontinuidade ímpar na história do universo.

Em segundo lugar, cabe reconhecer que esta é uma questão antes de mais nada ideológica. Sexualidade e poder se entremeiam em todas as culturas, potência e poder tem o mesmo radical etimológico. Poder é ter acesso a algum tipo de prazer socialmente valorizado. Em todas as culturas as formas e as influências da sexualidade são estruturantes das relações sociais, tecem os seus fundamentos ideológicos e são mantidas por estes. Este trabalho não tem a pretensão de conseguir se desimplicar de uma dinâmica tão abrangente, há que reconhecer que o que será exposto aqui também é fruto de ideologias.
Em terceiro lugar, a partir do reconhecimento do jogo de poderes e ideologias, gostaria de refletir sobre os valores envolvidos e sobre os prazeres e os sofrimentos decorrentes. Deixar que a compaixão guie a reflexão para que a construção do conhecimento escape de uma mera busca narcísica que dissocie a humanidade do resto da natureza e de si mesma.

A sexualidade é um termo de múltiplas acepções, algumas bem amplas, outras mais estritas.
Neste trabalho, usaremos um significado que englobe os seguintes aspectos:
Ø O sexo biológico (características genotípicas e fenotípicas de meu corpo);
Ø A orientação sexual (quem desejo);
Ø A identidade sexual (quem acredito ser);
Ø O papel de gênero (como me comporto); [1]
Ø A prática erótica (como faço sexo);
onde cada um destes aspectos comporta um espectro contínuo e não meros pólos opostos.

Referenciais Teóricos

Segundo BOURGUIGNON (1990), foi a saída do nomadismo e a fixação do homem ao solo que propiciou a atual forma patriarcal de organização social com um domínio do homem sobre mulheres e crianças. Essa organização buscou diversas formas ideológicas de garantir a dominação, que variaram ao longo da história humana. O pensamento ocidental até o século XVIII era baseado no one-sex model, onde havia a referência de um único sexo, o do homem, do qual a mulher era uma mera inversão. [2] Após o reconhecimento do sexo feminino como um referencial distinto, foi o homossexual que passou a assumir o lugar do homem invertido. A teoria do determinismo biológico, que buscava na anatomia e na fisiologia justificativas para as relações de poder vigentes, passou então a fundamentar os papéis de gênero na sociedade industrial moderna.

COSTA (1989) vai mostrar como que os papéis do homem e da mulher foram reconstruídos no Brasil com a passagem da Colônia ao Império. Nesta época, era necessário consolidar a nova nação brasileira. Uma soberania nacional é apoiada em um tripé econômico, militar e cultural. [3] Era necessário povoar o país de forma a garantir uma força de trabalho adequada e unificar a nação em torno do conceito de pátria. Nesta época, o movimento higienista estava promovendo uma drástica redução nas taxas de mortalidade, o que resultou em um crescimento populacional exponencial da humanidade. Com a autoridade de quem "controla a morte", os higienistas forneceram o suporte ideológico para a construção dos novos papéis de gênero, combatendo as práticas vigentes no Colonialismo, como o casamento endógeno. A família, antes orientada para a garantir a propriedade, passou a ser instrumento de defesa do estado, através da proteção e conformação da prole. Agora unida por laços de amor, ela teria os recursos que o estado não dispunha para preparar tantas crianças para um mercado de trabalho em franca expansão. A sexualidade foi confinada ao casamento indissolúvel, que sobre a égide de garantir a reprodução sadia da espécie, foi moldando as relações em torno e dois valores: a pureza d'alma e o vigor do corpo. A sexualidade passou a ser valorizada, mas ninguém gozava impunemente; ela era delimitada pelo casamento, centrada na reprodução humana e responsável pela conformação da prole às necessidades da pátria. [4]

Da natureza fisicamente mais frágil da mulher inferia-se uma delicadeza que resultava num destino de amar; da força do homem induzia-se um vigor que o destinava à sensualidade. Ao mesmo tempo, dessa fragilidade da mulher induzia-se uma debilidade na sua constituição moral. A redução do amor ao amor conjugal reprodutivo convertia o homem na personagem do pai e a mulher na personagem da mãe. Para amenizar as contradições decorrentes foram construídas válvulas de escape: ao homem é oferecido o machismo – se ele deixou o papel de proprietário do patriarca para cuidar da propriedade dos outros, a ele é oferecida a propriedade sobre a mulher e os filhos. [5]

Com a crescente urbanização, a mulher sai da Casa Grande e gradativamente ganha o espaço das ruas. [6] A ênfase na necessidade de amamentar refreia este movimento em direção ao espaço público e restringe a sexualidade feminina ao papel da mãe. O prazer de amamentar vai substituir o prazer genital, restrito às poucas ocasiões reprodutivas. Os conflitos femininos passam a ser descarregados através de crises nervosas, que as protegiam dos seus opressores e eram medicados pelos doutores [7]; a mulher histérica é o contraponto do homem fálico.

Mas é o próprio sucesso deste modelo voltado para a "proteção" da prole que vai levar à sua transformação. Na medida em que as nações se consolidam, o expansionismo advindo dos crescimentos exponenciais (populacional e industrial) vai gerar guerras que rompem essas condições de contorno oitocentistas. Com os homens na guerra, as mulheres saem de casa para trabalhar. A amamentação passa a ser desincentivada, a criação dos filhos extremamente regrada, e o cuidado terno e amoroso passa a ser considerado anti-científico apesar das crianças nas creches que seguiam este preceitos morrerem em taxas que beiravam, quando não atingiam, os 100%! [8]

Freud irá introduzir novas formas de se entender a sexualidade que ainda hoje trazem seus desdobramentos. Ele vai romper com a visão do determinismo biológico, substituindo-a por um determinismo psíquico, onde a sexualidade é função da história do indivíduo, e portanto decorrente das condições culturais onde ela se desenrola. Essa reação ao biológico vai se acirrando ao longo de sua obra, e o próprio conceito de civilização é visto como fruto da necessidade de dominar a destrutividade inerente ao homem. [9] A dicotomia entre natureza e cultura se torna exacerbada através da cisão entre o natural e o simbólico.

Em contrapartida, Reich traz um modelo onde a destrutividade humana não seria primária, onde os impulsos podem encontrar um estado de harmonia social e com a natureza. Ele vai retomar questões biológicas, como a importância do corpo e da energia na sexualidade humana [10], e ao mesmo tempo, se preocupa com a forma como a cultura reprime a sexualidade espontânea. [11]

Os seus estudos sobre as couraças caracterial e biofísica vão levar a um modelo utópico de sexualidade: o caráter genital; [12] ao mesmo tempo em que mapeiam a quase totalidade dos seres humanos em um estado, muitas vezes disfarçado, de uma profunda miséria sexual. Seus estudos sobre o Funcionalismo Orgonômico [13] vão estabelecer hierarquias de funções na natureza que ao mesmo tempo em que se diversificam ao longo da história evolutiva, herdam as características das funções mais amplas que lhes deram origem. Mas neste quadro, a sexualidade não surge como uma mera especialização dos seres assexuados, mas como uma manifestação de uma função energética mais ampla que abrange todo o cosmos. Para Reich há um determinismo biológico primário que é modulado por um determinismo psicossocial que o restringe. Diz ele: "O psíquico constitui uma parte do vivo, mas o vivo não é nem uma parte, nem idêntico ao psíquico, Em conseqüência, pode-se corretamente julgar o psíquico a partir do ponto de vista do vivo, mas não se pode compreender o vivo apenas do ponto de vista psíquico." [14]

No entanto, o seu modelo de caráter genital fica restrito à equação sexual de um ato centrado em órgãos genitais heterocorporais [15] como a forma de se chegar a abrangência da fusão e da função cósmica. O quanto isto era uma restrição dos paradigmas de sua época só vai se revelar mais tarde, com o questionamento de algumas ideologias então vigentes. Por outro lado, o caráter genital se revelou como um estado extremamente evasivo, um vislumbre sem permanência dos poucos que dele se aproximam, condenando os meros mortais à miséria sexual dos que não se genitalizam. Se torna um mito, e como tal, tende a ser encarado como um modelo, sujeito a se tornar um instrumento de dominação. Passa a ser visto não como um espaço de possibilidades menos restrito que o caráter neurótico, mas como uma forma de ser. Ainda está imbuído de uma conceituação que ao longo da história tem se mostrado ideológica na boca dos dominadores: isto é que é o natural.

No início do século, a Teoria da Relatividade dá um golpe na noção de absoluto, que vai se repercutir na noção de verdade em todas as áreas do conhecimento.
O paradigma determinista começa a ser questionado nos anos 20 a partir do Princípio de Indeterminação de Heisenberg, um dos resultados da Física Quântica. Mas é na segunda metade do século, com o surgimento da Teoria do Caos e dos estudos sobre a complexidade, que começa a haver uma real mudança paradigmática. A história perde a sua linearidade e se bifurca, a verdade deixa de ser única e proliferam as diversidades.

Nos modelos de influência cultural, oriundos das pesquisas antropológicas dos anos 20, a sexualidade é percebida como um material básico sobre a qual a cultura se desenrola, ao mesmo tempo em que a cultura vai formar os comportamentos e as atitudes sexuais. Sob este aspecto, eles rejeitam o essencialismo, mas por outro lado, a sexualidade é assumida como sendo universal e biologicamente determinada, permanece como uma categoria natural inquestionada, que tem por núcleo a reprodução. Eles reconhecem a existência de atitudes que encorajam e restringem uma variedade de comportamentos sexuais, mas não o significado do comportamento em si.

Na sociedade moderna, a entrada gradativa da mulher no espaço público foi tendo desdobramentos cumulativos de longo alcance ao longo das décadas deste século. A prática feminista e os estudos decorrentes começaram a questionar o que era natural e separar sexualidade [16] de gênero, principalmente a partir dos anos 70. Para Gayle Rubin, haveria um conjunto de argumentos através dos quais a sociedade transformaria a sexualidade biológica em produtos da atividade humana, pelos quais as necessidades sexuais transformadas seriam satisfeitas. [17] Por outro lado, questões advindas do exame da homossexualidade trouxeram novos questionamentos que incluem as próprias categorias classificatórias da sexualidade, levando a inquisição de como essas categorias se constituíram. Essas duas correntes levaram ao desenvolvimento da teoria da construção social da sexualidade, que comporta a visão de que atos sexuais fisicamente idênticos têm significados sociais e subjetivos variados, e que as diversas culturas fornecem uma gama extensa de categorias, esquemas e rótulos para enquadrar experiências afetivas e sexuais. [18]

Na sua forma mais radical, a teoria construcionista nega a existência de qualquer impulso sexual indiferenciado que resida no corpo devido a sensações ou um funcionamento fisiológico. Mas as correntes mais moderadas aceitam a existência de um desejo inerente, que passa a ser reconstruído em formas de atos, identidade, convívio e escolha de objeto. O que está em questão não é apenas a busca de uma causalidade cultural, mas a desconstrução de comportamentos e processos constituídos ideologicamente. A sexualidade reside no significado que é atribuído ao ato, e não no ato como é visto por um estranho. Como coloca Vance, " a fisiologia do orgasmo e a ereção peniana não servem para explicar o esquema sexual de uma cultura assim como o espectro de audição humana não explica a sua música."

Esses diversos modelos culturalistas vão tirando uma ênfase que nos últimos séculos tem sido colocada no desvio sexual, na patologia, e a deslocando para a questão da diversidade. Mas isso também é um comportamento ideológico. Se a sociedade moderna exercia um controle hard dos seus membros, calcada na força e na punição, o pós-modernismo veio trazer um controle soft, pela manipulação de um desejo que é oferecido, e onde a diversidade de opções serve para encobrir a possibilidade de um desejo que não seja oferecido, mas que brote do sujeito e não do assujeitamento.

A palavra patologia, apesar de ter adquirido uma conotação classificatória com fins excludentes, advém de pathos, sofrimento. Na medida em que reconhecemos que sexualidade e poder estão tão interligados e que disso decorrem formas opressivas, cabe reconhecer o que há de prazer e o que há de sofrimento nos significados por trás de cada comportamento sexual e de gênero, inclusive os convencionais. As categorias que nos são oferecidas ideologicamente [19] servem para estigmatizar e encobrir uma imensa gama de sentimentos e não para discriminá-los.

Geralmente, existe um sofrimento muito distinto do que lhes imputam os grupos dominantes, e muitas vezes negado pelos próprios envolvidos. Por exemplo, no filme Leila [20], um casal de jovens iranianos apaixonados descobre que não podem ter filhos porque Leila é estéril. O marido não se importa, mas a mãe dele sim, ela quer continuar a linhagem da família. Convence a Leila que ela está sendo egoísta, que o marido nega sua frustração por gostar dela, mas que ele gostaria muito de ter um filho, e que ela deveria convencê-lo a casar-se novamente. Ele reluta a ter uma segunda mulher, mas acaba aceitando porque Leila insiste tanto que isso vai minando a felicidade de ambos. Quando ele casa com outra mulher, Leila não suporta e se separa dele. Ele rompe com a segunda esposa, mas Leila não o aceita de volta, e ambos continuam sofrendo. Mas uma menina havia sido gerada deste segundo casamento, e na cena final do filme, Leila a vê em uma festa. Seu olhar para a menina revela o quanto ela gostaria de poder gerar uma filha. Este sofrimento teve que ser encoberto por um pretenso sofrimento do marido ou da sogra, tal a sua intensidade. O próprio sofrimento do marido amoroso ao ver o relacionamento se deteriorar é socialmente desconsiderado por todos os membros da família. Há sofrimentos que são culturalmente intensificados e/ou relegados.

A sexualidade contemporâneae seus condicionantes

As tradicionais representações sociais do masculino e do feminino se formaram em um contexto de emergência do estado-nação e de modernização bastante distinto do que se encontra hoje. Os processos de globalização levaram a um enfraquecimento do estado; a ideologia neoliberal busca uma flexibilização da mão-de-obra que implica em uma desvalorização do trabalho (o que importa é que exista um exército de mão-de-obra excedente que mantenha os salários baixos [21]); o mundo está se deparando com uma ameaça de superpopulação e de um esgotamento de recursos. A valorização do ato de produzir se deslocou para o ato de consumir. Portanto, uma família que gere uma prole numerosa e qualificada tornou-se desnecessária para os interesses dominantes.

A introdução de novos métodos contraceptivos vai alavancar uma "revolução" sexual [22], alterando principalmente a ênfase na reprodução e em decorrência a indissolubilidade do casamento. As separações e os recasamentos vão transformar a estrutura familiar de hierárquica em rizomática [23], numa rede de entrelaçamentos que dilui o autoritarismo patriarcal mas também a autoridade do pai enquanto Lei. O homem perde o seu papel de provedor, não tem mais emprego, mas a mulher e os filhos tem subempregos. Se antes o lar não era o seu lugar, mas o da mulher, agora o espaço social também não o é. A televisão toma o seu lugar na apresentação do mundo a seus filhos, e a tecnologia automatizada é mais compreensível para suas crianças do que para ele, tornando seu desemprego permanente. Não aprendeu a cuidar, isso era tarefa das mulheres, não sabe cuidar dos filhos e nem mesmo de seus próprios sentimentos. Sem ter palavras para elaborar o que acontece, torna-se violento [24].

Os que sobrevivem às exigências do mercado, entram em um consumismo oferecido e exigido como forma de sobrevivência social. O modelo masculino do machão fálico-narcisista torna-se mas cada vez menos fálico e mais narcisista.

O estereótipo de mulher continua sendo o da histérica, mas não mais o da mulher nervosa, e sim o da sedutora que despreza. O olhar no infinito de todas as modelos não dão a menor chance de se estabelecer contato, apenas de se desejar o inatingível. Pois o desejo oferecido não foi feito para ser saciado.

A longevidade humana é progressivamente estendida, o idoso se torna cada vez mais um importante contingente populacional; mas afastado dos papéis tradicionais do ancião, expropriado de uma aposentadoria digna, o lugar reservado para ele é o da sexualidade hipocondríaca, voltada para o consumo de serviços médicos.

A repressão sexual tomou novas formas. Viva a quantidade (basta usar camisinha ou tornar o sexo virtual), mas evite a intensidade a todo custo. Não se vincule, o vínculo humano impede a flexibilidade da mão de obra, que não pode ter laços que ofereçam resistência à mobilidade do capital. Não se questione sobre suas dificuldades, tome um Viagra, um Prozac, ou um Banho-de-loja. Se você não tem desejos, temos vários a lhe oferecer. Se sua vida não tem graça, assista a de quem tem, e aguarde as cenas do próximo capítulo.

A dicotomia entre natureza e cultura

O lugar privilegiado da mente humana como único na natureza aos poucos vai se revelando fruto de uma ideologia antropocêntrica. BATESON (1979) vai ampliar o conceito de mente, de forma a englobar uma inteligência presente nos sistemas naturais e sociais, e a interligar o significado ao contexto.

Por outro lado, sincronicidade surge da Física Quântica abrindo brechas na noção de causalidade, fornecendo um referente para os modelos holísticos. Em sua interpretação ontológica mais recente [25] o universo passa a ser visto como um conjunto de ordens. A história vai retirar de uma complexa ordem implicada [26] do todo, fragmentos de ordens diversificadas por um processo de explicação parcial. Mas o universo pulsa entre essas duas ordens, o que é experienciado na ordem explícita é incorporado à ordem implícita do Todo, para ser reaproveitado em novos momentos de explicitação. Disto decorre que o universo não apenas evolui, mas que aprende pela experimentação, e que o pensamento simbólico faz parte da cultura do universo e incorpora-se à natureza. Uma vez que é construída por sucessivas explicitações, a natureza é a cultura do universo. [27] E se existe uma essência, não é no sentido do primordial imutável, mas no sentido de um todo em construção permanente que está presente em todas as partes.

Em oposição à globalização de cima para baixo do neoliberalismo, começa a ganhar força uma globalização de baixo para cima, de intercâmbio entre as bases, de reflexão sobre o lugar do homem na natureza; ou como pensava Chico Mendes, do lugar da cultura do homem no equilíbrio e na construção do natural. Pois a própria Floresta Amazônica formou-se após a última glaciação, ela é contemporânea do homem e influenciada por este, é uma floresta cultural tropical úmida. O rompimento como uma tradição de domínio da natureza e o caráter participativo desta globalização tece novas relações de poder mais democráticas, e portanto comporta uma nova sexualidade.

Em uma economia onde a humanidade perdeu o controle sobre o capital e passa a servi-lo, onde a mobilidade deste o afasta da responsabilidade dos seus efeitos [28], onde o homem é desumanizado e o ambiente é desnaturalizado pelo que o trabalho produz; esta força de globalização ascendente vai dando sustentação a novas ideologias onde o econômico passa a fazer parte de um sistema que integra o social, o cultural, o político, o ecológico e o sexual.

Conclusão

Estamos vivendo uma época onde muito rapidamente se transformam as condições onde se configuram as sexualidades, as condições atuais são muito distintas das de apenas 25 anos atrás, uma única geração. Por outro lado, a sexualidade traz em si uma inércia garantida por suas formas culturais de reprodução que faz com que muitas das características do período colonial ainda estejam bastante arraigadas. Com os estímulos se alterando muito mais rapidamente que os tempos de adaptação, surge um panorama complexo e conflitante no qual as teorias mais lineares se tornam reducionistas. Os próprios conflitos existentes vão promovendo uma série de alternativas de desdobramento futuro, tornando difícil prever ou mesmo antever que rumos serão trilhados. Entre estes conflitos, eu destacaria a polaridade entre a integração ou a des-integração do homem cultural perante a natureza.